quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

O esquecimento por mim

Não há nada de bruto em mim
como por essas que passaram assim assim
e as outras que foram boas.
Porque não quero mais ter mágoas para esquecer,
como é bom recordar
e recordar é viver...

Antes viver que recordar
antes morrer a amar sem memória
se te quero esquecer
é porque atrás de mim virá outra história

Não me culpes pelo desejo
pela gula
pelo olhar
culpa-me antes por não te poder amar...

esquece-me
esquece-me
e ainda para recordares...
...esquece-me ...

O esquecimento por Fernando Pessoa

Ah, a Esta Alma Que Não Arde
AH, a esta alma que não arde .
Não envolve, porque ama,
A esperança, ainda que vã,
O esquecimento que vive
Entre o orvalho da tarde.
E o orvalho da manhã

Esquecimento

Esse de quem eu era e que era meu,
foi um sonho e foi realidade,
Que me vestiu a alma de saudade,
Para sempre de mim desapareceu.
Tudo em redor então escureceu,
E foi longínqua toda a claridade!
Ceguei... tacteio sombras... que ansiedade!
Apalpo cinzas porque tudo ardeu!
Descem em mim poentes de Novembro...
A sombra dos meus olhos, a escurecer...
Veste de roxo e negro os crisântemos...
E desde que era meu já me não lembro...
Ah! a doce agonia de esquecer
A lembrar doidamente o que esquecemos!...

Florbela Espanca

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

TU DISSESTE[Adolfo Luxúria Canibal / Miguel Pedro]

Tu disseste "quero saborear o infinito"
Eu disse "a frescura das maçãs matinais revela-nos segredos insondáveis"
Tu disseste "sentir a aragem que balança os dependurados"
Eu disse "é o medo o que nos vem acariciar"
Tu disseste "eu também já tive medo. muito medo. recusava-me a abrir a janela, a transpôr o limiar da porta"
Eu disse "acabamos a gostar do medo, do arrepio que nos suspende a fala"
Tu disseste "um dia fiquei sem nada. um mundo inteiro por descobrir"
Eu disse "..."
Eu disse "o que é que isso interessa?"Tu disseste "...nada"
Tu disseste "agora procuro o desígnio da vida. às vezes penso encontrá-lo num bater de asas, num murmúrio trazido pelo vento, no piscar de um néon. escrevo páginas e páginas a tentar formalizá-lo. depois queimo tudo e prossigo a minha busca"
Eu disse "eu não faço nada. fico horas a olhar para uma mancha na parede"
Tu disseste "e nunca sentiste a mancha a alastrar, as suas formas num palpitar quase imperceptível?"
Eu disse "não. a mancha continua no mesmo sítio, eu continuo a olhar para ela e não se passa nada"
Tu disseste "e no entanto a mancha alastra e toma conta de ti. liberta-te do corpo. tu é que não vês"
Eu disse "o que é que isso interessa?"Tu disseste "...nada"
Eu disse "o que é que isso interessa?"Tu disseste "...nada"



mais fantástica ainda com som...

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Estado de Sitio...Sitiado

João Aguardela era em meados de 1990, figura e voz já familiar entre os que seguiam mais de perto os acontecimentos na música portuguesa. Descobrimo-lo nos Sitiados, quando ainda em finais de 80 passaram pelo 5º Concurso de Música Moderna do Rock Rendez Vous. Uma participação de que ficou a memória de uma das suas melhores canções - A Noite - guardada na compilação que recorda os finalistas desse ano (1988). Três anos depois, os Sitiados ganhavam lugar de destaque no panorama pop nacional e a Vida de Marinheiro afirmava-se então como uma das canções mais ouvidas do ano. Tanto, que acabou inscrita na memória de 90. O álbum contudo não se esgotava aí. E logo então, entre alguns momentos do alinhamento, escutavam-se sinais uma clara vontade em procurar outras formas de encarar o fado. A descoberta de novas tecnologias, aliada a um igual interesse pela memória e pela exploração da língua portuguesa (e da poesia) abriram portas a outras experiências, que foi lançando em projectos como a Linha da Frente, A Naifa e Megafone (esta última uma aventura a solo, aqui talvez inscrevendo os títulos mais desafiantes de toda a sua discografia). Morreu ontem, vítima de um cancro. Faria 40 anos em Fevereiro.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

be Strong

"Abre o teu coração com quem conhece a tua alma. Sê sincero, ainda que nesses momentos de intensa dor o falar te custe sangue."

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

"30 horas"

Uma da manhã …passam 30 horas
Da hora marcada

Quero voltar a ter a minha escrita de volta
Aquela que me padecia dos males
Aquela que era simples pelo conteúdo
E não pelas palavras
Aquela que tinha mil ais
Sem nunca dizer um ai sequer
Aquela que era homossexual
Não sendo homem nem mulher…

Quero deixar esta ansiedade corrosiva de parte
E voltar a olhar a vida de frente
Quero ser um entres muitos
Sem querer ser o único diferente
É assim que se faz
É assim que se faz
É assim que se faz
Repete-se, enrola-se e deliciamo-nos com ele.

E em mim mato-me
E aqui tu – que não eu
Jaz …

Passam 30 horas da hora marcada…
E não sinto frio
Não sinto calor
Não sinto dor
Não sinto nada
E contudo as rimas estão cada vez mais perfeitas
Como tu que me olhas quando te deitas
E sorris
E respiras
E não dizes nada
Simplesmente moras na minha cabeça
Assim
Lá…
Tu…
Habita…
Vem…
Cresce…
Sê vida em mim
Sê a lua cheia
Sê o sol de verão
Sê todos estes clichés anteriores
Sê mais um cabrão!


Tanta raiva contida
Tanto amor para dar
Tanta simplicidade nos actos de alguém
Que me quer simplesmente amar.

Mato-me mais um pouco
E desta vez em lume brando
Vou ficar aqui muito mudo…
Pensando…
Não no que quero…
Porque já o sei
Não no que me ofereceram
Porque já o guardei…
Não no que irá ser
Porque ninguém sabe
Não no fim…
Porque não quero que acabe


As frases feitas são feias e pouco melancólicas…o amor é banal e pouco instrutivo…os sonhos são pensamentos alheios sem nada para oferecer…os sorrisos são cinismos levados ao extremo…e tu? O que és tu? Que eu não te encontro defeito algum? – responde-me…

Serás muda?
Serás surda?
Será o teu silêncio capaz de amalgamar o universo
Baralhar e voltar a dar?!

Quantos jogos terei de jogar
Para sair sempre a ganhar
Quantas vezes terei de morrer
Para viver
Quantos poemas de amor terei de escrever
Para perceber o que Ele é
Quantas vezes terei de ir à casa de banho
Para deixar de lá ir…


GR